Karina Correa: "Se vencer significa continuar vivendo, eu venci"

- 26/10/2026

Era para ser um dia feliz para Karina Correa: um grupo de amigos reunidos para almoçar. O prato do dia era arroz carreteiro feito em disco de arado. Ela filmava o processo de cozimento quando foi surpreendida com uma explosão após reabastecerem o fogo com etanol. O acidente foi em fevereiro de 2021, três dias antes do aniversário de 40 anos de Karina, e resultou em 40% do corpo queimado, atingindo as duas pernas, braço e mão direitos, antebraço esquerdo e uma parte das costas, com queimaduras de 2° e 3° grau.

“Foi desesperador, sentia meu corpo muito quente, eu batia os braços e o fogo me rodeava, foi tudo muito rápido, segundos que mudaram minha vida. Eu não sabia o que fazer e as pessoas ao redor ficaram sem reação. Desci um lance de escada e pulei na piscina”, relembra Karina Correia.

Foram 31 dias de internação. “Na época da 2ª onda da Covid, não tinha visita, sem celular, mas eu tinha minha Bíblia, nos momentos de leitura me davam paz”, conta Karina.

O processo de tratamento incluiu cirurgia de enxerto no braço direito e nas duas pernas. “Foram dias de muita dor, tristeza. A troca de curativos e banhos diários, muito sofrimento. Fiz uso de malha compressiva, dois anos de fisioterapia com dermatofuncional”, detalha.

A ida para casa também não foi fácil, segundo Karina. Noites sem dormir, dores na hora do banho e dos curativos. “Eu chorava muito, veio a fase da coceira, era muita coceira. Não conseguia ficar muito tempo em pé. Não conseguir colocar qualquer tipo de roupa, pois muitos tecidos incomodavam. Sair em dias quentes eram muito difíceis também”, relembra.

Após o acidente, sequelas, cicatrizes e cirurgias. Uma delas, inclusive, resultou em necrose, levando Karina a fazer sessões de câmara hiperbárica para auxiliar e acelerar o processo de cicatrização. Desde então, ela convive com dor neuropática no braço.

Pós- acidente

“O acidente mudou profundamente minha vida, principalmente em relação ao trabalho, à minha autonomia e às atividades que eu realizava antes. Desde o acidente, não voltei a trabalhar e ainda convivo com sequelas físicas que interferem na minha rotina. Tenho perda de força no braço direito e na perna esquerda, além de sentir dores persistentes no braço, o que dificulta a realização de algumas atividades”, lamenta Karina, que é formada em recursos humanos e atuou por nove anos na área.

Ela conta que uma das coisas que mais sente falta é de andar a cavalo. “É difícil lidar com essas limitações e com a saudade de atividades que faziam parte da minha vida”, diz Karina, que tem sete cachorros e três cavalos.

Dificuldades

Para ela, o mais difícil de ser uma vítima de queimadura são as incertezas após o acidente. “No início, temos muitas dúvidas, medos e nem sempre encontramos as informações necessárias para entender o que está acontecendo e o que ainda teremos pela frente. O acesso ao tratamento das sequelas também pode ser um grande desafio. Existe ainda a dor, que muitas vezes é difícil até de mensurar e explicar para quem nunca passou por essa experiência. E não é apenas a dor física: depois do acidente, vem o medo de muitas coisas, a insegurança e o desafio de aprender a lidar com uma nova realidade”, relata.

Para ela, é preciso ter paciência com o processo, pois a recuperação é enta, exige persistência e respeito ao processo. “Acredito que, além do tratamento adequado, precisamos de informação, acolhimento e apoio durante toda essa jornada. É importante que a vítima saiba que não está sozinha e que tenha acesso aos recursos necessários para tratar não apenas as queimaduras, mas também suas sequelas e as consequências que permanecem ao longo do tempo”, diz.

 

Saúde mental

Karina nunca fez acompanhamento psicológico, mas o trabalho voluntário a ajuda a se manter de pé. “Compartilhar minha história, ouvir outras histórias e acolher pessoas que estão passando por situações semelhantes se tornou uma forma muito significativa de ressignificar minha própria experiência”, celebra.

Ela conta que ter amigos por perto também foi importante para ajudar a superar as dificuldades da recuperação.

“Quando penso em vitória, porém, entendo que ela não significa necessariamente ter concluído todo o processo de recuperação ou não ter mais sequelas. Se vencer significa continuar vivendo, enfrentando cada etapa e encontrando motivos para agradecer, então também posso dizer: eu venci. Não porque tudo terminou, mas porque minha história continua”, finaliza.

 

 

 

 

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