- 30/07/2026
Uma jovem mãe, dividida entre o cansaço, os cuidados com os dois filhos pequenos e o sonho da independência financeira e de ver as crianças crescerem. Essa era Bárbara Penna, aos 19 anos. Mas numa noite de novembro de 2013, tudo mudou. Ela foi agredida, teve o corpo queimado e foi lançada do terceiro andar pelo ex-namorado. “Eu morri, mas não fui enterrada”, diz.
O que veio a seguir foram meses de internação para tratar fraturas e as queimaduras que atingiram 40% do corpo. Mas não foram essas lesões que provocaram a maior dor em Bárbara: após quatro meses do ocorrido, ela soube que os filhos – um de três meses e outra de dois anos de idade - haviam morrido, assim como o vizinho que ajudou no socorro.
“E essa é uma perda que nenhuma cirurgia consegue reconstruir. Perdi até mesmo a chance de despedida. Um dia fui dormir com eles ao lado, e no outro dia eles tinham sido assassinados. Naquela época eu não queria mais viver, não fazia mais sentido continuar lutando”, lamenta.
Fora a dor de conviver com os pensamentos de que não poderia ver os filhos crescerem, da falta do cheiro, da mais velha chamando de mãe, ela ainda precisou reaprender a viver o dia a dia.
“Aprendi novamente a respirar sem aparelhos, a falar, a mastigar, a sentar, a caminhar. Cada pequeno movimento exigia uma força que eu nem sabia que existia, mas que eu precisava ter para sobreviver”, conta.
Bárbara diz que deixou de ser a mãe que sonhava em criar os filhos para se tornar uma mulher que acorda todos os dias convivendo com a dor do luto que nunca termina. “Existem dores que não cicatrizam. Você aprende a continuar vivendo, mas não aprende a deixar de sentir”, explica.
As marcas das queimaduras são visíveis em várias partes do corpo. Assim como ela não esconde as cicatrizes, também não se calou com a tristeza, a raiva e o luto. Pelo contrário: passou a usar a sua dor para consolar ou até mesmo evitar a dor de outras mulheres.
“Hoje, dedico meus dias a acolher vítimas, orientar mulheres, participar da construção de políticas públicas, realizar palestras por todo o Brasil e lutar para que nenhuma outra mãe precise passar pelo que eu passei”, conta.
A luta de Bárbara Penna gera resultados não somente nos depoimentos de mulheres que dizem terem sido salvas pela história dela. A luta dela virou lei. No início deste ano, foi aprovada a Lei 15.410/26 que agrava a punição para condenados por violência doméstica que continuarem a ameaçar ou se aproximar de suas vítimas durante o cumprimento da pena – a família do acusado, mesmo depois dele preso, continuou importunando Bárbara.
A norma também enquadra como crime de tortura a submissão reiterada da mulher a intenso sofrimento físico ou mental no contexto de violência doméstica e familiar.
“O homem que tentou destruir a minha vida não conseguiu destruir o propósito que nasceu em mim. Ainda tenho cicatrizes que doem, perdi aquilo que eu mais amo e minha história mudou para sempre. Mas a crueldade não conseguiu calar a minha voz. Foi da pior tragédia da minha vida que nasceu meu ativismo. Enquanto eu respirar, a minha voz será um alerta, um abraço e uma esperança para quem ainda acredita que está sozinha”, finaliza.