Acompanhamento psicológico ajuda vítimas de queimaduras a conviver com traumas e cicatrizes

YD Comunicação - 26/08/2022

Acolhimento, técnicas terapêuticas e adesão do paciente são fundamentais no processo

Dor. Tratamento longo. Cicatrizes para a vida toda. Essas são apenas algumas das questões que uma vítima de queimaduras precisa lidar após um acidente. E nem sempre, passar por tudo isso sozinho é fácil ou, até mesmo, possível. É aí que entra em ação o psicólogo, peça fundamental no acompanhamento de quem sobreviveu, mas precisará conviver com as sequelas. 


Sem o acompanhamento psicológico, talvez a babá Hozana Silva nem estivesse viva para contar sua história. Ainda em 2014 ele teve 40% do corpo queimado após um acidente com álcool em um restaurante onde era garçonete, em Macaé (RJ). “Achei que o tratamento seria rápido. Fiquei internada, longe do meu filho, que tinha 3 anos de idade e após a alta, sem acompanhamento, tive complicações que me fizeram retornar ao hospital. Confesso que tive vontade de cometer suicídio tamanha dor”, conta ela.

Durante a internação, logo após o acidente, ela conta que a ajuda psicológica foi fundamental. “Os dias não passavam. Um dia a psicóloga trouxe um mural com fotos da minha família e colocou em frente à cama. Isso ajudou demais, porque eu olhava aquilo ali e me dava forças para continuar lutando”, conta Hozana.

Esse atendimento humanizado é essencial, conforme destaca a psicóloga Sandra Almeira, coordenadora da equipe multiprofissional do Centro de Tratamento de Queimaduras da Irmandade de Misericórdia de Campinas: “fortalecer a esperança, a motivação e a resiliência faz uma inscrição diferencial e é essencial no cuidado ao paciente vítima de queimadura.”

Para alguns pacientes, este acompanhamento é essencial para toda a vida e não somente na fase aguda do tratamento. A profissional de serviço social Ariane Olimpio de Souza, 28 anos, por exemplo, foi vítima de acidente com queimadura ainda bebê. Na época, recebeu apoio psicológico, mas foi descontinuado na adolescência.

“Sofri bulliyng na escola, vivi a exclusão social e, com muito medo de passar por isso também na faculdade, resolvi buscar acompanhamento psicológico e consegui com a mesma profissional que me atendeu quando criança”, conta. Para ela, o que mais faz sentido na terapia é ter proporcionado a ela o autoconhecimento. “Consegui entender o que me deixava chateada, o quanto tinha de me posicionar sobre algo e consigo entender como não deixar que o reflexo do passado impacte no meu presente e no meu futuro. Foi importante para me ajudar até na aceitação das minhas cicatrizes”, diz. 

TRATAMENTO - Segundo psicólogos, a primeira dificuldade em se trabalhar com pacientes vítimas de queimaduras é lidar com a dor. “Na fase aguda, precisamos que o paciente entenda que, apesar da dor, ele precisa se movimentar, fazer a fisioterapia, sair da cama. Nas outras fases do tratamento, a gente vai lidar com a reabilitação, para que a pessoa volte à sua rotina, ao convívio social e muitos pacientes têm medo da convivência, dos olhares para as cicatrizes”, frisa a psicóloga do CTQ do Hospital Walfredo Gurgel, em Natal.

A psicóloga Sandra Almeida elenca os principais fatores que precisam ser trabalhados durante os atendimentos: raiva, culpa, medo, perdas sociais, profissionais e de vínculos, além da imagem corporal, autoestima, projetos de vida e reabilitação, lembrando sempre que a terapêutica é individualizada e que, muitas vezes, os familiares também precisam de acompanhamento.

“Muitos familiares não sabem como lidar com a situação, com o sentimento de impotência de ver um ente querido sofrendo e não ter o que fazer. Outra coisa: a queimadura atinge o organismo como um todo e nem sempre isso é compreendido. Pode ser que o familiar pense que é só superficial, que é só pele e tentamos fazê-los entender que é mais complexo que isso”, complementa Maria Odete.

PROFISSIONAL - Para atuar com pacientes queimados, é preciso muito mais que formação profissional. “É preciso ter o desejo de trabalhar numa área tão dolorosa e com feridas expostas, além das vulnerabilidades psicossociais”, destaca a psicóloga Sandra Almeida.

Para Maria Odete, o profissional precisa saber lidar com situações de muita ansiedade e angústia, acolher e acalmar. “Precisa ter formação em psicologia hospitalar e entender muito bem seu papel, além de buscar estudar sobre queimaduras”, completa.

Neste dia 27 de agosto, reservado para celebrar o profissional de psicologia, a Sociedade Brasileira de Queimaduras parabeniza a todos que resolveram enfrentar os desafios de atuar em uma área tão sensível como a de queimaduras. 


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